Música no desenvolvimento infantil

May 28, 2019

 

Mauro Muskat, neurologista e músico, tem dedicado sua carreira a pesquisa do impacto da música no desenvolvimento infantil. Segundo ele, ter estudado regência e composição foi essencial para a sua carreira de neurologista. Sua linha de trabalho se apoia na premissa de que a música é um potente instrumento de neurodesenvolvimento da criança e de suas funções cognitivas. Muskat também orienta trabalhos de mestrado e doutorado sobre neurociência educacional, com pesquisadores que veem a música como uma possibilidade não só de reabilitação, mas também com grande importância para a formação e desenvolvimento das crianças.

 

Mauro também atua como coordenador do Núcleo de Atendimento Neuropsicológico Interdisciplinar Infantil (NANI), Departamento de Psicobiologia da Unifesp – Universidade Federal de São Paulo. O NANI é um núcleo especializado no diagnóstico interdisciplinar e em pesquisas dos transtornos do neurodesenvolvimento. “Hoje sabemos que a música tem um efeito diretamente na plasticidade cerebral, aumentando o cérebro de tamanho. Um cérebro de um músico é diferente de um cérebro de um não músico”, enfatiza o neurologista. E o uso da música, para fins terapêuticos, apoia-se na capacidade da música estimular uma série de reações fisiológicas que fazem a ligação direta entre o cérebro emocional e o cérebro executivo. A música estimula a flexibilidade mental e a coesão social fortalecendo vínculos e compartilhamento de emoções que nos fazem perceber que o outro faz parte do nosso sistema de referência. Isso significa que, quando uma criança está em contato com a música, ela pode não só lidar com as próprias emoções como também entrar em conexão com o comportamento do outro. “É o que a gente chama de cognição social, que é responder com base na sua subjetividade mas também na experiência do outro”, declara Mauro.

 

Crianças em contato com a música e o imediatismo

A exposição à música em diversos ambientes contribui para a construção de um cérebro biologicamente mais conectado, fluido e criativo. Crianças que tem contato com a música apresentam respostas fisiológicas mais amplas, maior atividade das áreas associativas cerebrais, maior grau de neurogênese (formação de novos neurônios em área importante para a memória como o hipocampo) e diminuição da perda neuronal (apoptose funcional). O médico declara como a música também pode ser uma aliada contra o imediatismo que estamos vivendo com o advento da tecnologia. Afinal, ficar “dentro” de máquinas pode acarretar comportamentos bastante alienados nas crianças, não é reforçado o papel de esperar, sincronizar com o outro e só fortalece o imediatismo. Na infância, a etapa de alfabetização pode ser estimulada com canções, principalmente naquelas em que as sílabas são rimadas e repetitivas, pois ajudam a criança a entender o significado de cada palavra. Além disso, a música aumenta o poder de concentração e memória, estimula o raciocínio lógico e potencializa o ritmo de aprendizado de idiomas. Isso é possível porque ela, na qualidade de sequência temporal de sons articulados, se relaciona diretamente com a linguagem. Ou seja, é semelhante ao discurso não apenas na conexão dos sons, mas também na organização das estruturas concretas. Assim como todos os outros eventos no corpo humano, a música é o resultado de uma interpretação cerebral. Dessa forma, quanto mais rica for em harmonia (diversidade de sons: agudos, médios e graves), timbres e ritmos, mais estimulado será o cérebro de quem a ouve.

 

Socialização

As cantigas de roda são muito estimulantes, pois são, ao mesmo tempo, exercício físico e brincadeira; Ajudam a desenvolver a fala e a consciência corporal; Permitem às crianças explorar universos e temas variados, que fazem a interpretação do mundo por meio da fantasia. Além disso, a criação de instrumentos de percussão simples (triângulos, tambores e sinos) é capaz de auxiliar as crianças a explorarem os sons de forma prática. Usar um gravador para registrar e reproduzi-los ajuda a criança a desenvolver a expressão vocal e a consciência de si, já que a voz é uma das digitais humanas, pessoal e intransferível. Os benefícios de incorporar a música à realidade das crianças já se fazem sentir antes mesmo da idade escolar, pois ela é capaz de confortar, despertar afetividade e estreitar laços de confiança com os pais e familiares. Nos primeiros anos da escola, por sua vez, as atividades que envolvem música — como as já citadas cantigas de roda — facilitam o processo de socialização da criança, ainda bastante presa a seu próprio ego. É possível, por meio dela, resolver conflitos de relacionamento, incentivar o espírito de cooperação e a empatia entre os colegas, além de vencer barreiras como indisciplina, timidez, insegurança, aumentando a fluidez na expressão das emoções, vontades e auxiliando na formação da personalidade. Pais e professores podem usar a música nas mais diversas situações como forma de comunicar às crianças que é hora de ouvir uma história, tomar banho, pedir desculpas a um colega, fazer uma atividade artística ou dormir.

 

A música na formação

Aplicar a música no desenvolvimento da criança não tem como objetivo transformá-las em prodígios, mas sim: Melhorar sua qualidade de vida; Educar sua sensibilidade para a vida, para a contemplação da beleza e a capacidade de viver em comunidade; Aproveitar os anos em que o ser está mais poroso à assimilação de conhecimento, condutas e valores. Alguns estudos comprovam, inclusive, que o bebê, ainda no útero materno, desenvolve reações a estímulos sonoros. Sabe-se que a formação das estruturas auditivas no bebê se dá logo nos primeiros meses de gestação, o que aponta uma relação muito íntima e sensível do ser humano com essa forma cognitiva. Nesse período, o bebê tem contato com a sua primeira referência de ritmo musical: o batimento cardíaco materno. Antes de nascer, ele já aprecia as batidas do coração da mãe, o timbre da sua voz e, após o sistema auditivo estar formado, todo o repertório musical e os sons com os quais a mãe tem contato. A educadora Teca Alencar de Brito, em seu livro Música na Educação Infantil, aponta que a criança faz música brincando, sendo essa sua maneira de se relacionar com o mundo que descobre a cada dia. Nesse período, a criança se “transforma” em sons, aprende o gestual que envolve tocar um instrumento, traduz movimentos rítmicos através do corpo, pesquisa, constrói e descobre novos timbres e instrumentos, inventa e imita motivos melódicos e ouve com prazer a música de todos os povos. É na informalidade do brincar que reside a relação afetiva entre a criança e a música. Atualmente, com a televisão e veículos de massa fortemente presentes nas culturas urbanas, a família e a escola têm a difícil missão de intervir e garantir que a música continue participando da nossa formação.

 

Que tipo de música é o mais indicado?

A inserção do lúdico na educação vai além de implantar e estabelecer currículos ou aplicá-los para os alunos sem nenhum recurso que desperte sua atenção, isso implica numa renovação da formação continuada do professor. A linguagem musical vem sendo apontada, por um número cada vez maior de especialistas, em todo o mundo, como uma das áreas do conhecimento mais importantes a serem estudadas no desenvolvimento da criança. Um trabalho realizado por cientistas da Universidade de Toronto, no Canadá, comprovou que os recém-nascidos expostos a uma melodia serena permanecem tranquilos. O psicopedagogo, arte-educador e mestre em educação João Beauclair afirma que “A música não é só uma questão de interferência na educação da criança, é uma necessidade, que deve ter espaço consagrado e rotineiro, por possibilitar a melhoria da sensibilidade, beneficiar os processos de aquisição da leitura e da escrita e auxiliar na melhoria da capacidade de memorização e de raciocínio”. Alguns educadores musicais indicam a música clássica como a melhor para ser oferecida aos bebês, porque esse tipo de som tem batida semelhante ao ritmo cardíaco em repouso, despertando na criança sensação semelhante à que ela tem quando colocada próximo ao coração materno. O psicopedagogo conclui dizendo que “a linguagem musical é herança cultural de toda a história da humanidade e deve ser aproveitada, cada vez mais, na escola de educação infantil e na educação como um todo. Mas, como tudo na vida, o uso da música na educação da criança também deve ser feito com discernimento. Beauclair adverte: “aos pais cabe a tarefa de usar o bom senso. Fugir dos modismos musicais talvez seja uma boa saída, oferecendo a seu filho cantigas de ninar, músicas folclóricas, música sacra, jazz, música popular brasileira, tudo o que tem qualidade é válido”.

 

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